outubro 22, 2005

Scolari entrevista Estado S.Paulo

(agradecimento ao Portugal em Brasil p'la cedência do espaço)

 

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Segunda-feira, 24 de Outubro de 2005

"Sonho com Portugal na final"


Pentacampeão mundial com o Brasil não considera um projeto impossível fazer nova decisão de Copa, embora com outra camisa

Antero Greco
antero@estado.com.br

Luiz Felipe Scolari costuma dizer que tem os pés no chão e não gosta de fazer projeções atrevidas. Mas essa é mais uma de suas artimanhas para desviar atenção sobre os times que dirige e para surpreender rivais. Com a tática da humildade e do estereótipo de peão gaúcho, colecionou títulos com Criciúma, Grêmio, Palmeiras e de quebra levou o Brasil ao pentacampeonato mundial em 2002 na Ásia. Sob essa falsa casca grossa Felipão, católico fervoroso, devoto de Nossa Senhora do Caravaggio, é um sonhador. Nos últimos tempos, se flagra imaginando com freqüência como seria disputar uma segunda final consecutiva de Copa, embora desta vez no comando de Portugal. "Vamos sonhar um pouco, que não custa nada", admite. "Minha seleção não é a 7.ª maravilha do mundo, mas tem qualidade e podemos pensar grande", raciocina, para emendar em seguida. "A projeção inicial é a de ficar entre os oito melhores."

O sonho, no entanto, precisa de ajuda para tornar-se realidade - no caso do futebol, é o planejamento. Por isso, Felipão não perde tempo e já fecha o planejamento para os próximos oito meses, até a estréia no torneio. Desde que confirmou a vaga com folga, ao vencer o Grupo 3 das Eliminatórias Européias com 30 pontos (7 vitórias e 3 empates), tem feito reuniões constantes com seus auxiliares de comissão técnica e até já viajou para a Alemanha a fim de encontrar local de alojamento. "Se der tudo certo, ficaremos numa cidadezinha de 1.800 habitantes, com toda facilidade e com tudo por perto", avisa. As três opções já foram entregues a Gilberto Madail, presidente da Federação Portuguesa de Futebol e dirigente que apostou suas fichas nos métodos de trabalho de um brasileiro que não gosta de conversa mole. "No começo, estranharam meu jeito", admite Felipão. "Hoje, o entrosamento é perfeito, os jogadores vêm felizes para a seleção, os estádios estão cheios nos nossos jogos e há proximidade entre o time e o público." Uma experiência que deu certo em 2004 - Portugal foi vice-campeão da Eurocopa que organizou - e pode estender até 2008. "Vai depender do que fizermos no ano que vem", reconhece. Se depender de sua vontade e da família, o apartamento com vista para o mar, em Cascais, a 30 quilômetros de Lisboa, não ficará vago tão cedo. "Meu filho mais velho está na universidade, estamos com qualidade de vida excelente e não queremos voltar", reconhece Felipão, nesta entrevista exclusiva que concedeu ao Estado por telefone. "Fico na Europa por mais alguns anos."

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O senhor conseguiu classificação fácil para o Mundial, foi vice-campeão europeu, mas o presidente da federação disse que será difícil segurá-lo, se for campeão ou se for mal. É a saída anunciada? É a ruptura?

Não tem nada de errado. Houve uma interpretação errada. O presidente quer que eu fique. Ele quis dizer que, se eu for campeão, talvez não tenha como me segurar, porque estarei muito valorizado e haverá propostas altas. Se a seleção for um fracasso, também vai ser difícil me manter até 2008, porque o torcedor português é exigente, cobra muito. Para não ocorrer nem uma coisa nem outra, só se ficarmos entre os 8 melhores.

Mas sua intenção é a de continuar ou a de ir embora?

Quero continuar aqui, porque me sinto muito bem. Minha família está adaptada, meu filho mais velho ainda tem dois anos e meio de estudos na Faculdade de Direito e não quero ficar distante dele. Tenho sido sondado por clubes e até por uma seleção (a da Rússia), que me oferece bom dinheiro. O certo é que há 99% de possibilidade de continuar na Europa. Mesmo porque as distâncias são curtas e com facilidade estarei sempre perto do meu filho.

O senhor enfrentou rejeição no início. Ela ainda existe?

Não!!! No começo, estranharam, mas agora assimilaram a forma como eu trabalho e há entrosamento total na comissão técnica. Os jogadores também vêm felizes, contentes, a cada convocação. Conseguimos aproximar a seleção do torcedor. Antes, era tudo muito fechado e isso não pode, afasta o público. Agora, não. Os treinos são feitos com campo aberto, os jogadores dão autógrafos, as pessoas nos param, conversam. Há muitas famílias, crianças, gente de idade que vai a nossos jogos. E lotam os estádios.

Esse bom astral faz o senhor sonhar com mais uma final?

Claro. Não custa nada sonhar. Me passou pela cabeça um dia ser campeão do mundo. Ok, consegui. Seria bonito, então, estar em outra final de Mundial. Não sou bobo e sei tirar a pressão em cima dos jogadores. Quero ir para a Copa da Alemanha com os pés no chão. Não somos a 7.ª maravilha do mundo, estamos em 9.º lugar no ranking da Fifa. Portanto, costumo dizer que, se ficarmos entre os oito melhores, estará muito bom para Portugal. Com isso, também, tiro a ansiedade do povo português. Mas...

Mas... o senhor acha que pode surpreender. É isso?

Por que não? É um campeonato curto e quem estiver em boas condições supera tudo. Veja o caso da Grécia, no ano passado. Estava em boa fase, corria muito, e nos derrotou na final da Eurocopa. Depois, nas eliminatórias mais longas, nem conseguiu se classificar.

O senhor fala de bom astral entre os jogadores. Mesmo com o Figo, que chegou a abandonar a seleção, depois da Eurocopa de 2004 e que só voltou recentemente?

Ele está feliz da vida. Brinca com todos os outros, assume a liderança. É trabalhador, faz tudo o que a gente pedir. Está numa fase de adaptação à Itália, porque lá o campeonato não é fácil. Mas conto muito com ele.

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Quem será o destaque de sua seleção? O Figo mesmo?

Um jogador de muito potencial é o Cristiano Ronaldo (atacante do Manchester United). O problema é que se trata de um jovem e ainda inconstante. Tem altos e baixos e não se firmou como titular no seu time. Por isso, imagino que haverá jogo em que vai arrebentar, mas é possível que haverá partidas em que não ficará até o fim.

O senhor diz que em princípio trabalha com a hipótese de Portugal ficar entre os 8 melhores participantes. Quais serão os favoritos ao título?

Não tem muito como fugir do tradicional. Equipes com história como Brasil, Argentina, Itália, Alemanha e até Inglaterra são aquelas com mais condições. Têm camisa e história.

Não há outras equipes que podem correr por fora nessa situação?

A Ucrânia está jogando muito bem, a Suécia mantém qualidade, mas não sei se vai longe. A Holanda está bem, bem, bem. A França é uma incógnita, porque correu perigo até de nem ir para a Copa e se classificou em cima da hora. A República Checa começou bem, fazia muitos gols e agora ainda precisa passar pela repescagem. Os africanos vão fazer um pouquinho de barulho, mas sem condições de brigar pelo título. Os asiáticos, quando muito, garantem um ou outro entre os 8 finalistas.

Nessa avaliação, Portugal então entra como uma zebra?

Não quis dizer isso. Não é zebra, mas não tem a tradição daquele grupo que considero o mais forte. Porém, no ano passado, pela primeira vez chegou a uma final em competição entre times adultos. Quer dizer que mostrou valor e evolução.

Por falar, em evolução: o senhor espera novidade tática?

Não. As seleções vão jogar no 4-4-2, no 3-5-2 ou no 4-4-1-1, que é a nova coqueluche. Não tem ninguém jogando diferente.

Portugal também jogará em algum desses esquemas?

Em princípio, jogarei com 4-2-3-1. Vou explicar melhor. Tenho o Costinha e o Maniche para fazer mais marcação no meio-campo, enquanto o Figo, Deco e Cristiano podem armar e ajudar a defender. O Pauleta fica mais à frente. Mas posso colocar o Cristiano junto com o Pauleta e formar um 4-4-2. Não tem muito que inventar.

Mudando de assunto. O senhor tem acompanhado a confusão no Brasileiro por causa das arbitragens?

Mas que 'espetáculo' de campeonato, hein? Que coisa absurda. Até o presidente da federação daqui veio falar comigo. Melhor nem falar nisso...

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Publicado por Andréa Silva em outubro 22, 2005 09:45 AM
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